A reforma tributária segue em direção à sua próxima etapa, mas ainda existem questões importantes que precisam de definição antes da entrada em vigor dos novos tributos. Com a previsão de início da Contribuição...
A reforma tributária segue em direção à sua próxima etapa, mas ainda existem questões importantes que precisam de definição antes da entrada em vigor dos novos tributos. Com a previsão de início da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) em janeiro de 2027, empresas e profissionais da contabilidade acompanham dúvidas sobre alíquotas, regras de cobrança, regulamentação e funcionamento dos sistemas tecnológicos.
O fim do período eleitoral retirou do debate algumas propostas de mudanças no cronograma e na estrutura da reforma. Entre elas estavam a possibilidade de adiar a implantação do novo modelo, suspender temporariamente o sistema e rever mecanismos como o split payment.
Entretanto, a manutenção do calendário não significa que todas as etapas estejam resolvidas. Questões técnicas, jurídicas e legislativas continuam em discussão e podem influenciar a adaptação dos contribuintes.
Pelo menos cinco pontos merecem atenção de empresários e contadores nos próximos meses.
5 desafios da Reforma Tributária
1. CBS em janeiro de 2027 exige definição da alíquota
A CBS substituirá o PIS e a Cofins e começará a valer em 1º de janeiro de 2027. Diferentemente do IBS, que terá uma transição gradual entre 2029 e 2032, o tributo federal entrará em vigor praticamente com sua alíquota integral.
Nos dois primeiros anos, haverá uma redução de 0,1 ponto percentual para acomodar a fase de testes do IBS.
O percentual de referência, porém, depende da conclusão dos procedimentos de cálculo e aprovação pelo Senado. As estimativas divulgadas no debate técnico apontam para uma alíquota de 9,21% para a CBS e de 27,91% na soma com o IBS.
A definição desses percentuais interfere diretamente no planejamento das empresas. Com os números oficiais, será possível revisar preços, contratos, sistemas de emissão de notas fiscais e projeções financeiras.
Para os contadores, acompanhar a divulgação das alíquotas e orientar os clientes sobre os efeitos da mudança será uma das principais tarefas dessa etapa.
2. Noventena da CBS pode provocar disputa judicial
A cobrança da CBS também envolve uma discussão constitucional que pode chegar ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O debate trata da anterioridade nonagesimal, conhecida como noventena. A Constituição determina que contribuições sociais respeitem um intervalo mínimo de 90 dias entre a publicação da norma que institui ou modifica o tributo e o início da cobrança.
A Emenda Constitucional 132 estabeleceu regras específicas para a definição das alíquotas de referência pelo Senado, mas não mencionou expressamente a garantia prevista no artigo 195, parágrafo 6º, da Constituição.
Contribuintes defendem que a CBS deve respeitar a noventena. A Fazenda Nacional, por sua vez, entende que a resolução do Senado apenas definirá a alíquota de um tributo já instituído pela Lei Complementar 214/2025.
Se o Judiciário acolher a interpretação dos contribuintes, a cobrança poderá começar apenas em março ou abril de 2027, embora o PIS e a Cofins tenham previsão de extinção em janeiro.
A definição desse entendimento terá reflexos sobre o calendário de recolhimento e as obrigações fiscais das empresas.
3. Imposto Seletivo ainda precisa de regulamentação
Outro ponto pendente envolve o Imposto Seletivo, conhecido como imposto do pecado. A cobrança alcançará produtos e atividades considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, como cigarros, bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas, veículos, embarcações, aeronaves, bens minerais e apostas.
Para estabelecer as alíquotas e detalhar as regras de cobrança, o governo precisa encaminhar um projeto de lei ordinária ao Congresso Nacional.
Enquanto a regulamentação não avança, os setores econômicos alcançados precisam acompanhar as definições para calcular os possíveis impactos sobre custos, preços e operações.
O tributo também integra a estrutura de arrecadação prevista na reforma, especialmente diante da substituição gradual de impostos atuais, como o IPI.
4. Split payment depende de estrutura tecnológica
O split payment continua previsto na reforma tributária, mas sua implantação exige preparação de empresas, bancos e instituições de pagamento.
O mecanismo permitirá separar automaticamente a parcela correspondente aos tributos no momento da liquidação financeira da operação.
A implementação ocorrerá de maneira gradual, com etapas iniciais facultativas nas operações entre empresas. Para funcionar corretamente, o sistema dependerá da integração entre instituições financeiras, Receita Federal, Comitê Gestor do IBS e contribuintes.
A mudança também exige atenção ao fluxo de caixa. Como parte do valor da operação seguirá diretamente para o recolhimento dos tributos, as empresas precisarão avaliar os efeitos sobre recebimentos, capital de giro e conciliação financeira.
Dessa forma, os escritórios contábeis terão participação importante na orientação dos clientes e na revisão dos processos fiscais e financeiros.
5. Tecnologia e documentos fiscais exigem adaptação
A implantação da reforma também depende de mudanças nos sistemas utilizados pelo poder público e pelas empresas.
O novo modelo exige documentos fiscais eletrônicos atualizados, integração entre a Receita Federal, o Comitê Gestor do IBS e milhares de prefeituras, além de procedimentos de apuração e aproveitamento de créditos tributários.
A operação integrada desses sistemas será necessária para que os contribuintes emitam documentos, registrem operações e cumpram suas obrigações corretamente.
Por isso, empresas precisam acompanhar as notas técnicas, atualizar seus programas fiscais e preparar as equipes responsáveis pela emissão e conferência dos documentos.
O que fazer de imediato?
Mesmo com definições ainda pendentes, o calendário da reforma exige continuidade na preparação. Deixar a adaptação para os últimos meses pode dificultar a revisão de processos e a organização financeira dos negócios.
Entre as medidas que merecem atenção estão:
A reforma tributária entra em uma fase de preparação que exige acompanhamento permanente. A manutenção do cronograma para 2027 coloca empresas e contadores diante de uma agenda de mudanças que envolve legislação, tecnologia, gestão financeira e cumprimento de obrigações fiscais.
Por isso, acompanhar cada nova definição e antecipar os ajustes necessários será importante para evitar dificuldades quando as novas regras começarem a valer.